12 de mai de 2009

O Narrador nas narrativas visuais

É incrível como uma das figuras mais importantes de uma narrativa é tão relegado por estudiosos e criadores. Estou bem longe de ser um especialista, mas em nenhum dos livros básicos publicados no Brasil sobre quadrinhos (e alguns que vi sobre cinema) pouco ou nada se fala sobre o narrador. Os que falam sobre o Narrador, o tomam apenas como um elemento textual e esquecem o elemento visual.

O narrador é a porta de entrada para o mundo criado pelo autor (diégese). Qualquer mundo (virtual, ficcional ou real) é grande de mais para ser retratado de forma integral, cabe ao narrador selecionar os elementos de cada mundo e passar ao leitor/observador – ou melhor, Fruidor como os novos intelectuais gostam de dizer. Tudo o que não é dito pelos personagens, mas que o autor acha importante dizer cabe ao narrador.

Na literatura é fácil identificar o narrador. O narrador se dirige a nós, o livro é um dialogo entre ele (narrador) e nós (apesar de não podermos responder). Mas como podemos identificar-lo em uma narrativa visual como um filme? Parte é exatamente como fazemos nos livros. Lemos o texto: diálogos, recordatorios e, a partir de detalhes como os verbos, identificamos o narrador. Já o narrador visual requer o estudo dos pontos de vistas dos quadros. É interessante notar que às vezes (aliás, muitas vezes) o narração textual entra em conflito com um narração visual como veremos mais a frente.

A narratologia definiu duas características para o narrador, cada uma com três classificações:

Foco narrativo

Onisciente: o narrador que têm consciência sobre todas as coisas e todos os personagens. Pode vagar pelo tempo mostrando o passado e o futuro.

Interno: no foco interno o narrador se restringe a um personagens determinado ou mais. Ele narra apenas o que os personagens selecionados pelo autor sabem, e uma visão restrita porem mais ampla que a do narrador externo.

Externo: o narrador é um observador que não tem contato intimo com os personagens, portanto ele só pode relatar o que ele vê e sente durante as cenas, mas não pode dizer muito sobre o que se passa na mente das personagens ou o que aconteceu em suas vidas antes ou depois (a não ser que ele presencie essas cenas).

Como eu disse não sou um especialista e também não conheço livros de literatura ou narratologia, por isso esse breve resumo foi tirado da Wikipédia. Nele a uma pequena discordância quanto ao foco narrativo, em uma das paginas é colocado mais dois focos, o “restritivo” e o “interventivo”. Na minha interpretação o “restritivo” (Focalização restritiva: A visão dos fatos dá-se através da ótica de algum personagem) faz parte do foco interno e o foco Interventivo [Focalização interventiva: O autor faz observações sobre os personagens (típica dos romances modernos - Machado de Assis)], dependendo do caso, pode ser entendido como interno e/ou como onisciente.

Pessoa do narrador

Heterodiegético: o narrador não participa da história.

Homodiegético: o narrador é uma personagem secundaria.

Autodiegético: o narrador é o personagem principal.

Essas características são fáceis de perceber na literatura, portanto vou pular para a identificação dessas características (as que podem ser aplicadas) na parte visual de uma narrativa.

O foco narrativo visual é o ponto de vista usada para desenhar a cena (quadrinhos e animação) ou a localização da câmera no cinema.

Na maioria das narrativas visuais o foco é onisciente, percebemo por que a câmera (ou o ponto de vista da cena) viaja pela cena sem restrições, o autor (desenhista, diretor ou roteirista) pode colocar a câmera em qualquer ponto (no caso do cinema só se ele possuir os recursos, mas no quadrinho ele pode posicionar literalmente em qualquer ponto) do cenário, pode mostrar o ponto de vista de qualquer personagem ou deslocar a câmera para a visão de um animal por exemplo.

Uma narrativa visual que tivesse o foco como interno só poderia mostrar as cenas do ponto de vista dos personagens (um ou mais como disse antes), isso quer dizer que a câmera não poderia ser colocada em um ângulo que um personagem não estivesse. Dois personagens que narrassem a história só poderiam ser vistos um pelos olhos do outro.

O foco externo seria a visão de um personagem que estivesse sempre fora das cenas, mas ainda sim estaria presa a um ponto de vista possivel. Uma conversa do parque dificilmente seria mostrada do alto.

A pessoa do narrador e o grau de envolvimento do narrador com a história. Identificar essa característica do narrador vai depender do foco.

Se o foco for interno a pessoa do narrador pode ser determinada pelo ponto de vista de quem conta a história, se for autodiegética a história toda será mostrada pelos olhos do personagem principal se for homodiegética será mostrado pelos olhos de um ou mais personagem secundário (mais ou menos como “bruxa de Blair”) e se for o heterodiegético será mostrado pelos olhos de um personagem que não faz parte da trama (talvez nem mesmo identificado).

No caso dos focos oniscientes e externos, descobrir a pessoa do narrador dependera do texto (diálogos, recordatorios, monólogos internos e etc.). Muitas vezes em narrativas visuais temos uma câmera que vaga livremente pelo espaço (um foco visual onisciente) e textos (diálogos, recordatorios ou monólogos) que mostram claramente um foco narrativo textual interno. Isso acontece tantas vezes que não estanhamos, mas em termos de lógica é uma condição estranha. É como assumir que existem dois narradores diferentes para a história. Claro que isso não é errado cabe ao autor ver se interessa a história um narrador diferente para a parte visual e textual.

A cara que ler esse pequeno texto vai se perguntar: pra que eu vou usar isso? Por que eu diminuiria minha liberdade e escolheria apenas um ponto de vista para a história?

Escolher restrições e transformá-las em qualidades é um exercício interessante. Bruxa de Blair, por exemplo, é uma produção barata que se utiliza da restrição como qualidade. Contar a historia através de uma câmera dá credibilidade ao mundo imaginário criado para o filme. Temos a impressão de ser real porque são pontos de vista possíveis, o diretor sacrifica os ângulos inusitados que poderiam aumentar a intensidade das cenas pela credibilidade de um ponto de vista que o fruidor esteja acostumado, criando uma grande empatia com os personagens mesmo sem os conhecermos profundamente. Nos vemos lá por que se estivéssemos naquelas cenas seriam esses os pontos de vistas dos nossos olhos.

Outra possibilidade é criar combinações inusitadas entre o foco narrativo e a pessoa do narrador. Machado de Assis faz isso em seu romance “Memórias póstumas de Brás Cubas”. Brás cubas é o personagem principal, mas também é o narrador onisciente da história. Como personagem Brás cubas não poderia ter acesso aos pensamentos de outrem ou acontecimentos que não foram vivenciados por ele, porém Brás cubas não é um personagem comum. Brás Cubas é um “morto”, portanto não estaria preso as regras da realidade e poderia vagar de um tempo ao outro ou de uma mente a outra. Essa é uma das características que tornam o romance importante até hoje.

Existem milhares de motivos para se pensar muito bem na escolha de um narrador, mas o mais importante é saber o que sua história necessita e o seu desejo como autor tentando conciliar as duas coisas.

Se alguém tiver mais conhecimentos para acrescentar ou discordar deixe comentários! Flwww

Bibliografia (têm melho? Então passe a sua bibliografia :PP)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Narrador

http://pt.wikipedia.org/wiki/Narrador_não-confiável

http://pt.wikipedia.org/wiki/Foco_narrativo

http://pt.wikipedia.org/wiki/Modo_narrativo

2 comentários:

Celisa Saito disse...

Oia =^_^= Alexandre também é cultura! Hehehe... muita cuca no lance hauahuahua...

Arackawa disse...

nossa! vc por aki
Iai vc q ta estudando q q acho do meu comentário? serve pra alguma coisa?
=D
bjos Ce